
A tragédia concebe a situação mais impotente pela qual o ser humano pode ser submetido, enquanto ser afetivo. A tragédia arrebenta, a tragédia implanta o pessimismo, a tragédia rebaixa a carapaça imponente da raça humana. A tragédia apresenta aspectos aparentemente perturbadores, mas que podem ser convertidos em possibilidades reacionárias se analisados em específico, com um olhar crítico, desgarrado dos valores sentimentais. Há cem anos, o mundo assistia a uma das maiores tragédias da história. O naufrágio do transatlântico Titanic, devido às enormes proporções, em todos os sentidos, deixou o mundo engasgado. Mas, não nos preocuparemos aqui, em relatar números e características do acidente, vamos direto ao ponto: Seu significado. Sim, qual teria sido a moral histórica da tragédia com o maior navio de passageiros daquele tempo? Que consequências teria gerado o gigantesco acidente no tocante à autoestima da Europa?
Pois bem, façamos um breve relato ambiental do cenário. A primeira classe do navio levava ícones da alta burguesia europeia e norte americana. Membros de clãs industriais fortemente amparados pelo rico e produtivo comércio internacional, baseado na conquista de mercados consumidores na África e no continente asiático, senhores de escravos aproveitadores do neo colonialismo e de suas vantagens lucrativas, donos de jazidas de pedras preciosas, em fim, todo o glamour, toda pompa, toda demonstração de luxo e ostentação circulavam no interior da primeira classe do navio. Vitrines ambulantes da BELLE ÉPOQUE, exibindo seus artefatos reluzentes banhados a ouro, prata, bronze e sangue. Um ambiente saturado de negociações milionárias e planos visionários. Isso era a primeira classe do RMS Titanic, o retrato da gloria europeia.
Do outro lado, a 3ª classe. Do outro lado, não: NO FUNDO DO NAVIO! Uma sociedade oprimida, fugitiva da realidade toxica da Europa, da miséria, do desemprego, da intolerância e da vida marginal. Pessoas que levavam na bagagem o sonho americano de prosperidade, atraídas pela propaganda que prometia uma vida melhor. Mães e pais de família, crianças, jovens e idosos, carregando no peito a esperança e o sonho de milhares de outras pessoas que não tiveram o prazer (ou a sorte) de embarcar rumo a América. A 3ª classe do Titanic, muito ao contrário da primeira, era o retrato da angustia e da triste realidade do submundo da Europa. Milhares de operários, trabalhadores autônomos, pequenos comerciantes e outros cidadãos que nem mesmo se enquadravam nas descrições anteriores.
O navio mais luxuoso do mundo era, de forma incrivelmente conjunta, um micro cosmos da sociedade europeia, colocando no mesmo espaço físico realidades que representavam os contrastes da Europa do início do século XX. Um continente que, de um lado posava como centro cultural do mundo, que ditava moda, valores e costumes para todo planeta. Mas, do outro, produzia em larga escala uma massa de miseráveis dependentes do regime de trabalho hostil e que viviam, por sua vez, à margem da sociedade. A comoção da tragédia abalou a moral da Europa, abalou a confiança de todo o conjunto da sociedade.A catástrofe do Titanic foi a premonição do futuro deprimente do velho continente.
A Europa afundou com o Titanic.





