sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Do 13 de maio ao 15 de novembro. A imperfeição de uma sincronia perfeita





Cronologicamente, abolição e o advento da república são apenas datas comemorativas separadas por um espaço de tempo ínfimo e que, aparentemente, nada tem haver uma com a outra. Pelo menos assim, nos foi passado pela educação básica durante décadas. A preocupação fútil em relevar-se apenas como datas de um pseudo e forjado patriotismo, distancia a sociedade das verdadeiras e controversas ligações entre tais eventos. Mais do que 1 ano 5 meses e 2 dias, abolição e proclamação são interligadas por uma rede sensível que causou abalos estruturais capazes de desbancar a pomposa monarquia brasileira. A Lei Áurea que por muito tempo foi vista simplesmente como a ultima alforria, é também o atestado de óbito do já enfraquecido império do Brasil.

A abolição da escravatura, automaticamente forneceu as ultimas peças necessárias ao quebra cabeça que levaria os republicanos finalmente ao poder. A grande questão, porém, está justamente no pós 15 de novembro. A Lei Áurea, era clara quanto a garantia de inserção dos negros à sociedade e à cidadania plena. Não houve, porém nenhuma preocupação nem sequer gratidão por parte do governo em fazer valer tais garantias. Os agora Ex-escravos foram libertos e ao mesmo tempo presos à própria sorte, sem rumo ou qualquer perspectiva de sobrevivência no mundo selvagem da primeira república. Homens e mulheres filhos de gerações que sofreram a labuta cruel do sistema escravista, foram vítimas da falta de consideração do sistema republicano que, involuntariamente eles ajudaram a construir.

Erra quem pensa que o 13 de maio representou o fim das chibatadas e dos açoites terríveis. Precisaram seqüestrar navios de guerra para que seus clamores fossem ouvidos, se não pela voz pelos tiros de canhão. Bravo joão Cândido. Agora, não temeriam mais ao capataz, pois o capataz seria a própria sociedade. Como se não bastasse, é impossível apagar 400 anos de passado escravista com pedaços de papel e comemorações. Não se mata o monstro cultural do preconceito de uma hora para outra. Os negros do pós abolição conviveram com o inimigo implacável do tempo e das máculas que ele produziu, somados ao descaso do governo republicano chegamos à conclusão de que se os negros daquele período soubessem que o 13 de maio levaria ao 15 de novembro, certamente teriam dito não à “liberdade”.

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