
Dando continuidade a esse apetitoso assunto, comentaremos sobre outra iguaria muito apreciada, principalmente nos lares brasileiros, o bom e velho bolo da vovó. É uma receita simples, sem grandes segredos e apresenta aspectos regionais específicos. Analisando com certo saudosismo, dizemos que tal prato exala o cheiro da infância de muitos de nós. São de chocolate, baunilha (chaves, hahahah) festa, de fubá, milho e até, acreditem, de dinheiro! Não entendeu? Deixe-me explicar.
Todos sabemos que o Brasil viveu 21 longos e tortuosos anos de ditadura militar. Dentro desse tempo, pessoas inocentes pagaram caro por crimes que não cometeram, ou se cometeram, certamente se subverteram à ordem vigente. Mas, deixemos assuntos sobre crimes contra a vida para outra hora. A questão, porém, se dá a partir da instituição do chamado, “milagre brasileiro” durante a fase mais violenta do regime militar, o “reinado” do general Emílio Garrastazu Médici (1969-1974). Paradoxalmente a toda baderna e violência estabelecidas nesse tempo, o Brasil vivia a sua melhor e jamais vista situação financeira em todos os tempos. O incentivo governamental em obras públicas, projetos de desenvolvimento industrial e capital externo gerou para o “Brasil dos generais” um status quo econômico, digamos, confortável. Paralelo a esse bom momento, havia ainda uma preocupação eminente: A distribuição de renda continuava defasada. A solução encontrada pelo então ministro do planejamento, Delfim Netto (O super ministro!) foi formar um delicioso ”bolo” que seria constituído por arrochos salariais, ou seja, por parte do salário de milhões de trabalhadores brasileiros, dentre outros ”ingredientes”.
A promessa feita pelos homens do poder foi a de REPARTIR O BOLO com a população como símbolo da ”festa econômica brasileira”. O problema, é que o tempo foi passando e nada de repartirem o tal bolo! O povo sedento por melhores condições de vida e trabalho não sentia sequer o cheiro do tão esperado petisco. O tempo passou, e nada.
A realidade foi irônica. Comeram todo o bolo as escondidas e não deixaram um só pedaço para quem forneceu os ingredientes. A doce promessa feita aos brasileiros acabou sendo consumida por aqueles que estavam, a muito, de barriga cheia. Demos os ingredientes, mas não fomos convidados para a festa pobre que eles armaram. Deliciosa ilusão.
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